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Novos horizontes para tratar o Mieloma MĂșltiplo no SUS

  • 9 de mai. de 2023
  • 5 min de leitura

Dores nas costas, fraqueza, infecçÔes por repetição, fraturas frequentes... Por serem sintomas que facilmente podem ser confundidos com os de outras doenças, muitas vezes o Mieloma MĂșltiplo demora a ser diagnosticado. Os primeiros medicamentos lançados duas dĂ©cadas atrĂĄs para tratar a doença tinham pouca eficĂĄcia, principalmente em diagnĂłsticos mais avançados. Com isso, a sobrevida dos pacientes era muito limitada.


Nos Ășltimos anos, felizmente, vivenciamos um grande avanço no tratamento do Mieloma MĂșltiplo. Atualmente, hĂĄ uma ampla variedade de medicamentos que podem ser combinados, ao longo da jornada terapĂȘutica. Hoje, os pacientes apresentam uma sobrevida longa, inclusive atingindo a cura funcional. No entanto, apesar do cenĂĄrio positivo, o acesso aos medicamentos inovadores ainda Ă© uma barreira para grande parte da nossa população.


"Nossa prioridade, neste momento, Ă© diminuir a distĂąncia entre o acesso pĂșblico e privado a esses avanços. Se conseguirmos isso, a qualidade de vida serĂĄ uma realidade para um maior nĂșmero de brasileiros com a doença" - ressaltou o hematologista Angelo Maiolino, professor do Departamento de ClĂ­nica MĂ©dica da Faculdade de Medicina da UFRJ e pesquisador membro do Programa de Oncobiologia.


Fornecendo uma relevante contribuição para trazer luz Ă  discussĂŁo sobre a inclusĂŁo da lenalidomida - um medicamento inovador para tratar o Mieloma MĂșltiplo - no arsenal terapĂȘutico do Sistema Único de SaĂșde (SUS), recentemente, o grupo de pesquisa do Prof. Angelo Maiolino, juntamente com o LaboratĂłrio de Citometria de Fluxo do IPPMG/ UFRJ , coordenado pela ProfÂȘ Elaine Sobral, e colaboradores internacionais da Espanha, publicou um artigo (*) na revista cientĂ­fica Cancers, em edição especial voltada ao Mieloma MĂșltiplo.


Lenalidomida x Talidomida


O estudo comparou o desfecho do tratamento da doença com fĂĄrmacos disponĂ­veis no sistema pĂșblico de saĂșde (talidomida) e no sistema privado (lenalidomida). Demonstrou que os pacientes do sistema privado que receberam a lenalidomida tiveram um desfecho superior, tanto na obtenção da doença residual mĂ­nima negativa quanto na sobrevida global, quanto se comparada aos pacientes do SUS que nĂŁo receberam a lenalidomida, sendo tratados com a talidomida.


"Os mecanismos de ação da lenalidomida e da talidomida sĂŁo diferentes. Ambos sĂŁo imunomoduladores mas tĂȘm diferenças fundamentais e uma, particularmente, Ă© muito importante. A eficĂĄcia da lenalidomida Ă© muito maior, ela Ă© muito mais potente como medicamento e nĂŁo provoca neuropatia perifĂ©rica, uma complicação muito comum em consequĂȘncia do uso da talidomida" - pontuou o pesquisador do Programa de Oncobiologia.


"Essa limitação da neuropatia perifĂ©rica da talidomida acarreta que o paciente nĂŁo consiga usar o medicamento por um perĂ­odo muito longo de tempo, enquanto que a lenalidomida consegue ser administrada por perĂ­odos maiores, trĂȘs, quatro anos... Ao utilizar por um perĂ­odo mais longo e pela lenalidomida ter uma atividade mais eficaz como fĂĄrmaco, o paciente consegue resultados superiores como, por exemplo, mostramos no artigo da Cancers, na manutenção pĂłs-transplante autĂłlogo" - completou Maiolino, que Ă© vice-presidente da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia eTerapia Celular (ABHH).



Principais avanços terapĂȘuticos no tratamento


LĂąmina com cĂ©lulas da medula Ăłssea mostrando os plasmĂłcitos clonais do Mieloma MĂșltiplo

O Mieloma MĂșltiplo Ă© um tipo de cĂąncer no sangue, uma neoplasia hematolĂłgica, que se origina a partir do plasmĂłcito - que Ă© a cĂ©lula (glĂłbulo branco) que produz os anticorpos. Quando o plasmĂłcito se torna maligno, ocorre uma alteração clonal, ele se prolifera, infiltra na medula, podendo causar algumas tumoraçÔes chamadas plasmocitomas. A doença acarreta a produção de uma proteĂ­na alterada - proteĂ­na monoclonal - ao invĂ©s de um anticorpo normal.



Nas Ășltimas dĂ©cadas, as novas terapias-alvo no tratamento Mieloma MĂșltiplo aumentaram a sobrevida dos pacientes em cerca de 50%, sustentando o papel do sistema imune no controle da doença. Entre as chamadas drogas alvo, hĂĄ trĂȘs (3) categorias principais:


1. os inibidores do proteassoma que sĂŁo representados pelo bortezomibe e carfilzomibe e o ixazomibe (uso oral);


2. os imunomoduladores, inicialmente a talidomida, depois a lenalidomida e a pomalidomida que jĂĄ estĂŁo aprovados no Brasil;


3. os anticorpos monoclonais de vårios tipos, o principal deles hoje ainda é o anti-CD38, chamado daratumumab e isatuximabe. Recentemente, ocorreu aprovação de um novo anticorpo monoclonal específico chamado teclistamabe.



“Houve um enorme avanço. Nenhum desses medicamentos existia hĂĄ mais de 15 anos. O uso deles, em combinação, de primeiras linhas, e tambĂ©m na volta do doença (recidiva) representa uma grande melhora do desfecho, na sobrevida desses pacientes, de modo que consideramos que alguns de nossos pacientes podem nĂŁo ter uma cura, com o desaparecimento completo da doença, mas podem pelo menos ter uma cura funcional" - ponderou o hematologista.


Segundo o pesquisador, com o acesso ao tratamento com esses medicamentos inovadores os pacientes tĂȘm a chance de viver 10, 15, 20 anos e, eventualmente, vir a falecer de outra condição, senĂŁo o mieloma.



Uso da citometria de fluxo para anĂĄlise do microambiente tumoral


Atualmente, a maioria dos estudos na ĂĄrea de cĂąncer sĂŁo voltados para conhecer a cĂ©lula tumoral. Entretanto, existe a hipĂłtese de que seria necessĂĄrio um “solo fĂ©rtil” para que o cĂąncer se desenvolvesse. E no Mieloma MĂșltiplo nĂŁo Ă© diferente. Por isso, Ă© extremamente importante aprofundar os estudos da composição e das caracterĂ­sticas do microambiente onde a cĂ©lula tumoral se prolifera para compreender a patogĂȘnese da doença.


Para desenvolver suas pesquisas o Prof. Angelo Maiolino e equipe fazem uso da citometria de fluxo como ferramenta para estudo do microambiente tumoral no Mieloma MĂșltiplo. Por sua relevĂąncia cientĂ­fica e importĂąncia para saĂșde pĂșblica, este estudo recebeu apoio financeiro da Fundação do CĂąncer, no Ăąmbito do Edital de Pesquisa 2022 do Programa de Oncobiologia.


A citometria de fluxo de nova geração jĂĄ tinha uma grande contribuição para diagnĂłstico do Mieloma MĂșltiplo, mas agora a ferramenta Ă© usada, principalmente, na avaliação do que Ă© chamado de doença residual mĂ­nima. "Nesse estudo a resposta do tratamento Ă© avaliada pelo desaparecimento da proteĂ­na monoclonal. Com essa tĂ©cnica conseguimos aprofundar, ainda mais, a avaliação de resposta, ou seja, o desaparecimento completo dos plasmĂłcitos clonais " - explicou o pesquisador.


Segundo o especialista, se não tiver um microambiente doente que favoreça a proliferação do plasmócito, a doença não se prolifera, então hå uma possibilidade, ao avaliar o microambiente de, futuramente, algumas dessas drogas (os inibidores de proteassoma, os imunomoduladores e os inibidores monoclonais CD-38) atuarem (hoje algumas jå atuam), não somente no plasmócito, mas também no microambiente estimulando as células do sistema imune atacar o plasmócito maligno e fazer com que haja uma inibição da proliferação plasmocitåria.



*ReferĂȘncia:


Salgado, A.B.d.S.; MagalhĂŁes, R.J.P.; Pontes, R.M.; Barbosa, E.d.S.; Flores-Montero, J.; Sanoja-Flores, L.; Land, M.G.P.; Pimenta, G.; Dutra, H.d.S.; Costa, E.S.; Orfao, A.; Maiolino, A. Lenalidomide Maintenance and Measurable Residual Disease in a Real-World Multiple Myeloma Transplanted Population Receiving Different Treatment Strategies Guided by Access to Novel Drugs in Brazil. Cancers. 2023, 15, 1605. https://doi.org/10.3390/cancers15051605


Por LĂșcia Beatriz Torres, jornalista de CiĂȘncia, responsĂĄvel pelo NĂșcleo de Divulgação do Programa de Oncobiologia. Publicado em 09/05/2023.









 
 
 

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