Quando a célula desafina: uma leitura do câncer à luz de “A canção da célula”, de Siddhartha Mukherjee
- Dra. Bárbara Du Rocher
- há 7 horas
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Por Dra. Bárbara Du Rocher (FIOCRUZ, Oncobio Experts e Populariza a Ciência do Câncer)
O livro conta a história da célula, indo desde sua descoberta até uma análise profunda da evolução de organismos unicelulares para multicelulares. Neste contexto, dada a transição epidemiológica que estamos vivendo, com diminuição de mortalidade associada às doenças infecciosas e aumento da expectativa de vida, uma pergunta nos parece óbvia: E as células cancerosas, o que podemos dizer sobre elas?
Neste sentido, o autor dedicou um capítulo inteiro ao tema (capítulo 21) e iniciou enfatizando a heterogeneidade genética tumoral, que varia não só “entre indivíduos com o mesmo tipo de tumor, mas também dentro do próprio tumor de uma pessoa”. Por exemplo: o câncer de mama de uma mulher pode ter mutações em 32 genes, sendo que uma célula cancerosa pode carregar doze delas, enquanto outra, bem ao lado, pode carregar dezesseis (com algumas mutações se sobrepondo e outras não).
Assim, um único tumor de mama é, na verdade, “uma colagem de células mutantes, uma coleção de doenças não idênticas”. Neste sentido, não é de se surpreender que a promessa das terapias alvos visando genes específicos alterados tenham falhado em muitos casos. Afinal, como o autor aponta, “há nas células cancerosas suficientes heterogeneidade e fluidez para lhes permitir selecionar um diferente programa de genes que resista ao medicamento”. Trata-se, portanto, de uma resistência a fármacos (e biomoléculas) nos moldes da seleção darwiniana.
Desta forma, as terapias alvo (genéticas) e suas falhas deixaram claro que “Sequenciamento é sedução. São dados, não conhecimento” e nos fez perceber que as informações realmente de utilidade clínica talvez se encontrem na interseção entre células, suas mutações e o contexto: Como estas células vivem? Quais as principais vias metabólicas e processos funcionais que utilizam? Como interagem com o microambiente ao seu redor?
Câncer como comunidade
Assim, estamos diante de um novo paradigma para o desenvolvimento de novas terapias? Como Mukherjee sugere: “Talvez as células cancerosas, como órgãos e organismos, devessem ser vistas como uma comunidade, uma assembleia cooperativa, uma ecologia que deu errado”. Portanto, aos moldes da seleção darwiniana, podemos ver o câncer como uma comunidade. Uma comunidade que a curto prazo deu certo para o tumor, mas que a longo prazo deu errado, já que levará o indivíduo a óbito, diminuindo as chances de passar seus genes adiante. Como então atacar essa comunidade? Como essa comunidade se sustenta? Quais as principais vias metabólicas e processos funcionais que mantém essa comunidade em franca expansão?
Essa visão de comunidade e como ela se sustenta tem permitido um novo olhar: atacar o metabolismo, afinal, como descrito pelo autor, já foi visto que “algumas células cancerosas ficam surpreendentemente viciadas em certos nutrientes e vias metabólicas”. Isso porque Otto Warburg descobriu que muitas células cancerosas usam um método rápido e econômico de consumo de glicose para gerar energia, preferindo uma fermentação rápida sem oxigênio à queima lenda e profunda via mitocôndria, mesmo que haja oxigênio em abundância. O futuro com alvos metabólicos? Este metabolismo preferencial ficou conhecido como “efeito warburg” e um pergunta que fica é: “E se essa peculiaridade metabólica exclusiva das células malignas puder ser usada para iniciar uma incursão e matar o câncer?” Se for possível, então talvez o futuro da medicina de precisão não resida somente nas terapias alvo-moleculares, com foco nas alterações genéticas, mas nas terapias capazes de interferir em vias/processos essenciais à sobrevivência tumoral. Neste sentido, ter como alvo o metabolismo tumoral nos parece um caminho promissor a ser seguido. Quem sabe não veremos crescer a era das terapias “alvo-metabólicas”?
Por fim, para além de toda uma linha de pesquisa promissora em metabolismo tumoral, o autor deixou claro o quanto o uso combinado de terapias alvo (alvo moleculares e imunoterapias, em especial, as gênicas) irão revolucionar o tratamento do câncer. Assim, fechamos esse capítulo com a certeza de que, apesar do problema em oncologia ser gigantesco, nosso conhecimento crescente em oncobiologia está revolucionando a forma como tratamos o câncer!!!
*Nascido em Nova Délhi nos anos 1970, Siddhartha Mukherjee formou-se em biologia em Stanford, imunologia em Oxford e medicina em Harvard, garantindo assim uma visão integrada da tradução da biologia para a prática clínica, um olhar singular e tão necessário nos dias de hoje. Além disso, ele é autor de outros sucessos, como O imperador de todas os males, que apresentaremos aqui em breve!
** Os textos assinalados “...” foram retirados da íntegra do livro “A canção da célula”, de Siddhartha Mukherjee!








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