Falece Dr. Marcos Moraes, um dos idealizadores do Programa de Oncobiologia da UFRJ

04/05/2020 - por Lúcia Beatriz Torres*


O Programa de Oncobiolgia da UFRJ está de luto. Faleceu, aos 84 anos, o Dr. Marcos Fernando de Oliveira Moraes, um dos fundadores e maiores incentivadores do Programa. Sua generosidade e capacidade empreendedora o fizeram um homem à frente do seu tempo. Como fundador e presidente da Fundação do Câncer, Dr. Marcos Moraes apoiou incondicionalmente o Programa de Oncobiologia em suas ações no Ensino, Pesquisa e Extensão em Biologia do Câncer. A rede de pesquisa, que teve início nos anos 2000 com apenas 13 pesquisadores, sob a sua coordenação, passou a contar com mais de 300 membros, entre médicos, professores e alunos de graduação e pós-graduação, provenientes de diversas instituições do Estado do Rio de Janeiro.


Desde a sua criação, há 20 anos, o Dr. Marcos sempre fez questão de acompanhar de perto as diversas atividades do Programa de Oncobiologia. Com olhar atento a melhorias, não media esforços para captar recursos, no intuito de promover benfeitorias. Não é por acaso que o auditório do Programa de Oncobiologia, localizado no Instituto de Bioquímica Medica (IBqM) da UFRJ, recebeu o nome do Dr. Marcos Moraes. É lá, que desde junho de 2010 - em cursos, palestras e simpósios - se reunem pesquisadores para trocar informações, em estudos avançados sobre a Oncobiologia. E é deste auditório que a atual e futuras gerações de cientistas irão se inspirar em seu legado - de uma vida inteira dedicada ao incentivo à pesquisa e ao combate ao câncer no Brasil.


Filho mais velho de seis irmãos, Marcos Moraes nasceu no dia 10 de agosto de 1936, em uma família humilde de Palmeira dos Índios, em Alagoas. Terra do famoso escritor Graciliano Ramos e local onde Zumbi dos Palmares fundou a primeira nação negra das Américas, foi em sua cidade natal que o pequeno Marcos aprendeu a dividir, e também a multiplicar…


“Carinhos e estímulos que recebi na infância estão certamente na origem do enorme prazer que tenho na vida de transmitir o que aprendi, e de criar estímulos e condições necessárias para que outros possam fazer de forma mais eficiente” - ressaltou Dr. Marcos Moraes, em discurso proferido em 2012, na cerimônia de outorga do seu título de Doutor Honoris causa da UFRJ. Humilde, afirmou que acredita apenas ter ajudado na captação de recursos, reunindo benfeitores em prol de uma causa comum.


Do primário à direção do Instituto Nacional do Câncer


Em Alagoas, Marcos Moraes fez o primário no Grupo Escolar “Graciliano Ramos”; e no Colégio Pio XII, concluiu o seu ginasial. Para cursar o científico, teve a oportunidade de ir para o Rio de Janeiro estudar no famoso Colégio Pedro II. Em 1963, aos 27 anos de idade, se graduou em Medicina na hoje Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), tendo agregado também em seu currículo a experiência de ter sido diretor do Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina. Em seguida, deixa o Brasil para fazer residência médica nos Estados Unidos, na Faculdade de Medicina “Abraham Lincoln”, integrante da Universidade de Illinois, em Chicago.


Após o período no exterior, regressa à Palmeira dos Índios, onde pretendia viver e oferecer seus serviços profissionais. Na cidade onde nasceu, trabalhou no Hospital Regional Santa Rita. Lá, em 1967, teve a oportunidade de organizar o Serviço de Cirurgia, e, nos dois anos subsequentes, exerceu a função de cirurgião e chefe do Serviço de Cirurgia.


De volta ao Rio de Janeiro, em 1970, se estabelece profissionalmente, tendo trabalhado como cirurgião em Hospitais como Silvestre, Ipanema e Samaritano. Cinco anos depois, retorna para a Universidade de Illinois (EUA), onde desenvolveu várias linhas de pesquisa e depois passou a Fellow do Serviço de Oncologia Cirúrgica, de 1975 a 1977. Em 1978, retorna em solo carioca e tornou-se professor titular e chefe do departamento de cirurgia do Hospital Universitário Gama Filho.


Revolução no atendimento a pacientes com câncer no Brasil


Cirurgião com mais de 50 anos dedicados à Medicina, foram múltiplas as frentes com que o Dr. Marcos Moraes lidou no universo da Oncologia, seja como médico ou como gestor de instituições. Em 1990, atendendo a um convite do Governo Federal, participou da elaboração do Programa Nacional de Controle de Câncer. Nesse mesmo ano, assumiu a direção geral do Instituto Nacional de Câncer (INCA), cargo que ocupou até 1998. Durante a sua gestão, imprimiu ao Instituto a marca de uma administração ágil e moderna, capaz de promover rapidamente as profundas reformas necessárias à sua transformação em órgão público de referência para o controle do câncer no Brasil.


Ao longo de quase 9 anos à frente do INCA, exerceu um importante papel na construção da atual excelência clínica e científica da instituição. Ampliou ações para a detecção precoce do câncer, ao mesmo tempo que apoiou decisivamente o desenvolvimento da pesquisa científica no INCA. Foi responsável por uma revolução no atendimento aos pacientes com câncer no País, época em que foram incorporadas ao Instituto 3 novas unidades hospitalares: o Hospital de Oncologia (do ex-INAMPS), o Hospital Luíza Gomes de Lemos (da Associação das Pioneiras Sociais) e o Pro-Onco (da Campanha Nacional de Combate ao Câncer).


Em 1991, com o objetivo de promover o desenvolvimento institucional, capacitar os recursos humanos do INCA e atrair novos talentos, Dr. Marcos Moraes criou a Fundação do Câncer com outros três médicos do Instituto. Entre outras ações, através da Fundação do Câncer, e em parceria com o INCA, incentivou campanhas de combate ao fumo, desbravando uma luta incansável contra o tabaco e as indústrias do setor. Diante do sucesso de várias de suas iniciativas, o INCA foi nomeado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como colaborador do Programa “Tabaco ou Saúde”, na América Latina. Em 1994, o renomado oncologista foi diplomado pela OMS por sua atuação no combate ao tabagismo.


Reconhecimento de uma vida dedicada à medicina


Dispondo de amplo currículo em oncologia, Dr. Moraes escreveu mais de 35 trabalhos técnicos-científicos, foi o autor de 23 capítulos de livros e membro do conselho editorial de 11 revistas brasileiras e 6 estrangeiras de oncologia. Em 1997, ingressou como membro da Academia Nacional de Medicina (ANM), na cadeira nº 68, tendo também ocupado a presidência da instituição em duas diferentes gestões: 2007-2009 e 2011-2013.


Durante sua carreira profissional, recebeu inúmeras distinções, entre as quais a Medalha de Mérito Oswaldo Cruz; o Prêmio Octavio Frias de Oliveira, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) e o Prêmio da Fundação Conrado Wessel (FCW), na área de Medicina.


Dr. Marcos Moraes era presidente de honra do Conselho de Curadores da Fundação do Câncer, membro da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, professor honorário do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da UFRJ, cidadão honorário do Município do Rio de Janeiro, além de integrar, entre 2002 e 2017, o Conselho de Curadores da Fundação Antônio Prudente, mantenedora do Hospital A. C. Camargo.


Apesar de todos os compromissos e de sua projeção internacional, sempre fez questão de preservar suas raízes, sendo sócio-correspondente da Academia Palmeirense de Letras, Ciências e Artes de Palmeira dos Índios, sua cidade natal.

Marcos Fernando de Oliveira Moraes faleceu de causas naturais, na madrugada de 4 de maio de 2020, em sua residência no Rio de Janeiro, deixando duas irmãs, dois filhos e dois netos. E em nós, do Programa de Oncobiologia da UFRJ, o nosso mais profundo sentimento de respeito e gratidão.

*Com informações: Academia Nacional de Medicina, Fundação do Câncer, Assessoria de Imprensa do Gabinete da Reitora da UFRJ, IBqM/UFRJ, Tribuna do Sertão e G1.