“Leopoldo, aquele convite ainda está de pé?”
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Dra. Ottilia Rodrigues Affonso Mitidieri. Desde 1927, uma vida dedicada ao pioneirismo na ciência brasileira.
A história da ciência, em sua camada mais humana, se conta através de pessoas. Uma de suas pioneiras no Brasil, reconhecida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), completa 99 anos neste domingo, 29 de março de 2026.
Como cada aniversário encerra um ciclo e inaugura outro, no caso da Dra. Ottilia — como é carinhosamente chamada pelos corredores do Centro de Ciências da Saúde da UFRJ —, o que se inicia, a partir deste domingo, são as primeiras horas de um centenário que já começa a ser vivido e que muito nos honra.
O presente é nosso: do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis da UFRJ, do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e do Instituto Oswaldo Cruz, por onde Dra. Ottilia deixou e deixa as marcas de sua generosidade. É também um presente a seus três filhos, amigas, amigos e familiares.

Um convite que atravessou décadas
Conta-se que o convite ao qual o título desta homenagem se refere foi feito de forma simples: um bilhete deixado sobre livros, em um gesto de amizade e reconhecimento. O professor Leopoldo de Meis convidava a Dra. Ottilia Rodrigues Affonso Mitidieri e seu marido, o também pesquisador Emilio Mitidieri, a integrarem o Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ, por volta da década de 1970. A vida, no entanto, seguiu outros caminhos.
Quase trinta anos depois, já após sua aposentadoria no Instituto Nacional de Câncer, Ottilia reencontra Leopoldo. Com a delicadeza que marca sua presença, pergunta, munida do bilhete de Leopoldo, guardado há décadas: “Leopoldo, aquele convite ainda está de pé?”
Sim, a resposta foi imediata.
O encerramento compulsório da carreira de uma cientista se transformou em mais de duas décadas de presença ativa no laboratório sede do Programa de Oncobiologia, ao lado de colegas, estudantes e da querida amiga Dra. Vivian Rumjanek. Juntas, formaram gerações. Ambas mantêm viva uma ciência feita com rigor, afeto e curiosidade.
Quase 80 anos pela ciência e em diálogo com o mundo
Nos anos 1950, quando o mundo ainda assistia aos primeiros movimentos de consolidação da ciência moderna e Albert Einstein ainda estava vivo, Ottilia iniciava uma série de publicações na revista Nature, um dos periódicos científicos mais prestigiados do mundo. Entre 1955 e 1965, seus estudos sobre a enzima xantina oxidase ajudaram a compreender sua localização nas células, sua atividade em diferentes tecidos e sua modulação por drogas e processos metabólicos.
Pioneira, ela é também testemunha e sobrevivente de momentos difíceis da história da ciência no país, como o chamado “Massacre de Manguinhos”, que afastou diversos pesquisadores de suas atividades. Mas seguiu adiante.
No INCA, consolidou sua atuação na pesquisa básica, contribuindo decisivamente para a formação de novos cientistas. Mais tarde, já na UFRJ, manteve-se ativa por escolha, atravessando a cidade de ônibus para continuar fazendo aquilo que sempre fez: ciência.

Mãe, humana e mulher pioneira
Mas nenhuma lista de títulos, artigos ou instituições é capaz de traduzir completamente quem é Dra. Ottilia.
Como descreve sua filha, falar dela é falar de dedicação e simplicidade. De alguém que trabalhava entre papéis, livros e ideias, todos dispostos na mesa da sala. “Alguém que, diante desta homenagem, provavelmente diria: mas eu não mereço isso tudo”, diz Fernanda Mitidieri, sua filha.
Dra. Ottilia representa uma geração que ajudou a construir a ciência brasileira com persistência, compromisso ético e generosidade intelectual. Uma ciência que se faz nas relações, na formação de outros e na determinação em permanecer.

Hoje, aos seus 99 anos completos, iniciamos juntos as suas primeiras horas vividas do ano de centenário. Celebramos não apenas uma trajetória científica extraordinária, mas uma vida dedicada ao conhecimento, à colaboração e à humanidade.
E, de certa forma, seguimos respondendo, como Leopoldo, àquela pergunta feita há tantos anos:
Sim, Dra. Ottilia. O convite — à ciência, à curiosidade e ao encontro com descobertas — continua de pé.





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