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Laboratório da UFRJ pesquisa relação entre trombose e o câncer

Atualizado: 7 de fev. de 2023

Trombose é a formação de um trombo no interior do coração ou de um vaso sanguíneo em um indivíduo vivo - de acordo com a definição da Wikipedia. Sua composição varia de acordo com a localização vascular (venosa ou arterial) mas o trombo é principalmente composto por uma proteína chamada fibrina e por células vasculares como plaquetas, hemácias e leucócitos. Apesar de ser uma decorrência bem conhecida em doenças como diabetes – diferentes tipos de câncer também têm associação com a trombose, como o câncer de pâncreas, câncer de ovário, glioblastoma e leucemias.


No Laboratório de Trombose e Câncer do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ trabalham cerca de dez pessoas, que buscam compreender os mecanismos que relacionam o câncer com a trombose. Quais são os pacientes mais propensos a desenvolver trombose? Como a medicina pode intervir para evitar que a trombose aconteça, ou reduzir sua letalidade?


A associação entre trombose e câncer não é nova, mas ainda há muito o que conhecer. Ainda no século XIX o médico Armand Trousseau já observava que uma fração dos pacientes que tinham trombose eram diagnosticados, logo depois, com câncer. Fatalmente, o próprio médico sofreu com o mal que vinha estudando: ele desenvolveu uma trombose, desconfiou que pudesse ser o sinal de um câncer, e de fato era: Armand Trousseau morreu logo depois, vítima de um câncer gástrico. “É uma história trágica, mas a medida que passaram os anos e foram feitos estudos mais sistemáticos, e a hipótese inicial dele foi sendo comprovada: um indivíduo pode ter um caso de trombose antes do câncer, pode ter uma trombose depois do diagnóstico do câncer, e esse evento trombótico pode ser, inclusive, a causa da morte desse indivíduo”, afirma Robson Monteiro, chefe do laboratório de Trombose e Câncer e coordenador do Programa de Oncobiologia da UFRJ.


No laboratório, os cientistas utilizam camundongos para compreender um mecanismo que leva o paciente com tumor a desenvolver trombose: o aumento do número de neutrófilos no sangue. Em uma das linhas de pesquisa, os cientistas investigam animais com dois diferentes modelos de tumor, que demonstram diferentes comportamentos. Um dos modelos de câncer de mama (modelo 4T1) eleva muito o número de neutrófilos no sangue, e esses animais apresentam maior propensão a desenvolver trombose. Já o outro tipo de tumor (modelo 67NR) cresce em velocidade similar, mas não aumenta o número de neutrófilos e também não gera o estado de trombose nos animais.


“Os neutrófilos geram uma estrutura chamada rede extracelular de neutrófilos (também conhecidas como NETs), que está associada à trombose. E aparentemente, vários estados patológicos diferentes parecem fazer com que os neutrófilos gerem mais dessas estruturas, como o lúpus (doença autoimune) e alguns tipos de câncer”, afirma Robson. De acordo com o pesquisador, estudos vêm mostrando, inclusive, que as redes de neutrófilos podem favorecer as metástases.


No laboratório, são estudadas novas terapias que possam interferir na formação das redes de neutrófilos, como por exemplo, com a enzima DNase I. “Estamos tratando os camundongos com uma forma recombinante da DNase I, comercializada com o nome Pulmozyme, e observamos que a trombose vem sendo bloqueada e revertida. O que estamos testando agora é por quanto tempo um tratamento como este pode ser feito sem que comprometa a vida do animal, já que as redes de neutrófilos são importantes para o sistema imunológico", conta Robson Monteiro.


Causa da morte e testes clínicos


Além das consequências negativas geradas pela doença, a trombose chega a ser a causa da morte de pacientes com câncer. “Ao contrário do que muita gente pensa, a formação do trombo não se dá necessariamente perto da área do tumor, como se um câncer de mama só pudesse estar associado a uma trombose perto da mama, isso não é verdade. A trombose é uma mudança sistêmica, e existe o risco do trombo se formar em uma veia, se desprender do local de origem, e obstruir a circulação sanguínea em um órgão importante, com consequências fatais”, afirma o pesquisador.


Quais os passos seguintes? Robson acredita na importância de investigar melhor os mecanismos até ser possível testar as novas terapias junto a pacientes com câncer de mama. “A trombose e o câncer é muito complexa, tem outros mecanismos já mostrados, e esse mecanismo da rede de neutrófilos deve acontecer em uma fração de pacientes. Nosso desejo é poder atacar a doença dessa fração de pacientes, que pode representar uma grande quantidade de pessoas no caso de um tipo de câncer tão frequente como o câncer de mama”, afirma Robson Monteiro. Mas para isso acontecer, são necessários estudos clínicos, com pacientes.



Por Rosa Maria Mattos, jornalista de Ciência, responsável pelo Núcleo de Divulgação do Programa de Oncobiologia.


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