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Cientistas brasileiros ampliam representatividade da América Latina nas pesquisas globais de prevenção do câncer



A presença crescente de lideranças brasileiras nas fronteiras da inovação internacional contra o câncer reflete uma trajetória, nem sempre segura e constante, de investimentos na ciência. É uma responsabilidade continental em favor da vida e não só de brasileiros. 


O protagonismo brasileiro na Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer da Organização Mundial de Saúde (IARC-OMS), como único país da América Latina com o status de Estado-membro, contrasta com o desafio numérico das projeções da própria agência para a região. Até 2040, as mortes provocadas por casos de câncer, incluindo aí o Caribe, devem aumentar para 1,25 milhão por ano. 


Em quase seis décadas de existência, somente a partir de 2013, o Brasil passou a ter um assento na IARC, integrando atualmente um total de 28 Estados-membros. As regiões do planeta mais representadas por países são a Europa (15), a Ásia (6), o Oriente Médio (3), a América do Norte (2), e África (2). Oceania e a América Latina só possuem um país Estado-membro cada. Ampliar a participação de outros países latino-americanos na IARC seria relevante para fortalecer a prevenção de tumores importantes na região.


Participar como membro permite designar especialistas nacionais para ocupar os conselhos de governança e de investigação científica da IARC. Atualmente são três brasileiros na instituição, marcando presença desde a direção-geral aos dois conselhos institucionais. 


Diversidade científica azul-verde-amarela  


O cargo máximo da instituição é atualmente ocupado por uma cientista brasileira. Desde 2019, a dra. Elisabete Weiderpass, especializada em epidemiologia do câncer e prevenção do câncer, é a diretora-geral da IARC. Weiderpass está em seu segundo mandato. 


Mais recentemente, no dia 15 de maio de 2024, mais um cargo inédito para o país, o de presidente do Conselho Científico da IARC, foi oficializado pelo Conselho de Governança. Isso após a eleição por unanimidade do Conselho Científico, em favor de um brasileiro de longa trajetória na instituição, o pesquisador dr Luis Felipe Ribeiro Pinto. Ele é coordenador do Programa de Pós-Graduação em Oncologia do Instituto Nacional de Câncer (INCA). E no Programa de Oncobiologia, lidera investigações em tumores que afetam áreas como a cavidade oral, laringe, hipofaringe, orofaringe e esôfago, um grupo de cânceres mais frequentes em países em desenvolvimento.


Para completar a representatividade de especialistas oriundos do único país da américa-latina na IARC, temos outro pesquisador do INCA, o dr João Viola, atual vice-diretor do INCA. Ele foi membro do Conselho Científico de 2018 a 2021 e, desde 2023, representa o Brasil no Conselho de Governança da instituição. 


O papel da IARC na ciência do câncer 


A IARC se destaca por suas avaliações de risco, que analisam a probabilidade de certos compostos causarem câncer em seres humanos. "Essas avaliações são feitas por cientistas sem ligações com a indústria, assegurando transparência e rigor científico", detalha o professor.


A importância da IARC vai além das avaliações de risco. Ela também organiza dados globais sobre a incidência de câncer, influenciando políticas de saúde pública mundialmente. "As estimativas fornecidas pela IARC são fundamentais para que autoridades políticas desenvolvam políticas eficazes de prevenção e tratamento", destaca o dr. Luís Felipe.


Pioneirismo da América-Latina na presidência do Conselho Científico da IARCAssumir a presidência do comitê científico da IARC representa um marco estratégico para a comunidade científica latino-americana. "Isso mostra que a pesquisa de câncer no Brasil é extremamente respeitada internacionalmente", afirma dr. Luís Felipe. Ele ressalta que essa posição permitirá um maior alinhamento das prioridades regionais com as diretrizes globais da OMS, beneficiando não só o Brasil, mas também outros países da América Latina.


Entre as conquistas recentes, dr. Luís Felipe menciona a implementação da dose única da vacina contra o HPV no Brasil, baseada em evidências geradas pela IARC. "Essa mudança representa uma economia significativa e melhora a adesão ao programa de vacinação, prevenindo eficazmente o câncer de colo de útero, de canal anal, de penis e de orofaringe", comemora.


O Conselho Científico da IARC se reúne todos os anos em sessão ordinária no final de janeiro ou início de fevereiro. A última reunião ocorreu de 7 a 9 de fevereiro de 2024 no novo prédio da IARC em Lyon (presidida pela dra. Manami Inoue [Japão]), e a próxima sessão está agendada para 12 a 14 de fevereiro de 2025 por teleconferência (presidida pelo dr. Luis Felipe Ribeiro Pinto [Brasil]).


Com uma agenda de trabalho robusta e estratégica, a IARC continua a influenciar o cenário global da oncologia. "Estamos revisando nossos indicadores e já planejando as ações estratégicas para o período de 2026 a 2030". Entre os focos para trabalhos futuros, estão a melhoria da qualidade dos registros de câncer e a avaliação de novos compostos potencialmente cancerígenos, como gasolina e pesticidas.


"É um orgulho enorme representar a pesquisa latino-americana e brasileira em uma instituição tão prestigiada", conclui o dr. Luís Felipe. Sob sua liderança, a IARC reforça seu compromisso com a excelência científica e a prevenção do câncer, contribuindo para um futuro mais saudável e seguro para populações ao redor do mundo.


Confira trechos da entrevista com o pesquisador. Conversamos por telefone enquanto ele ainda estava na sede da IARC em Lyon, na França. 


O que é a IARC e qual a importância dessa organização para a prevenção do câncer?


Dr. Luís Felipe: A IARC, sigla para International Agency for Research on Cancer (Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer), existe há 58 anos e vai celebrar seu 60º aniversário em 2026. Foi criada por iniciativa do presidente francês Charles de Gaulle, que percebeu a necessidade de uma agência ligada à OMS dedicada à pesquisa das causas do câncer e à prevenção da doença. Inicialmente, a proposta era que a agência fosse financiada por um imposto sobre a venda de armas internacionais. Hoje é mantida por 28 países membros, cada um contribuindo com uma taxa anual e tem um assento no Conselho de Governança e no Conselho Científico. A IARC é única no mundo por ser inteiramente dedicada à prevenção do câncer e desempenha um papel fundamental ao organizar dados de registros de câncer e avaliar os riscos de compostos potencialmente cancerígenos.


Quais são algumas das principais contribuições da IARC?


Dr. Luís Felipe: A IARC conduz e organiza dados de registros populacionais de câncer, fornecendo estimativas periódicas sobre a incidência da doença em todo o mundo. Isso permite que autoridades políticas desenvolvam políticas de prevenção e tratamento baseadas em dados precisos. Por exemplo: facilita entender qual é a cobertura de radioterapia que deve ser oferecida com base nas estimativas de quantos números de novos cânceres vão ocorrer. E de cada tipo especificamente. Essas estimativas globais são democraticamente disponibilizadas no site da IARC, com uma série de gráficos que qualquer pessoa pode obter por tipo de câncer, sexo, ano, região, país. Outra contribuição importante são as monografias de avaliação de perigo ou risco, que analisam a chance de certos compostos causarem câncer em humanos. Recentemente, por exemplo, avaliamos o aspartame. Cientistas independentes se reúnem para essas avaliações, garantindo um processo transparente e baseado em evidências.


O que representa para a prevenção do câncer a presença de um pesquisador latino-americano na presidência do conselho científico da IARC?


Dr. Luís Felipe: É uma honra enorme para mim, tanto pela minha admiração de longa data pela IARC quanto pelo reconhecimento da qualidade da pesquisa em câncer no Brasil. Ter um latino-americano na presidência do conselho científico mostra que a pesquisa brasileira é altamente respeitada internacionalmente. Isso também nos permite alinhar as prioridades regionais com as diretrizes globais da OMS e trazer temas relevantes para a nossa área, beneficiando não só o Brasil, mas toda a América Latina.


Quais são as suas prioridades e planos à frente do comitê científico da IARC?


Dr. Luís Felipe: Trabalhamos de acordo com uma estratégia de médio prazo, revisada a cada dois anos. Estamos revisando os indicadores atuais e planejando o novo ciclo estratégico de 2026 a 2030. A curto prazo, nossas ações incluem a inclusão de mais estados membros, a melhoria da qualidade dos registros de câncer e a definição das prioridades de avaliação de compostos cancerígenos. Estamos, por exemplo, avaliando a gasolina e pesticidas quanto ao risco para câncer. Por projetos de colaboração, podemos identificar compostos de risco para alguns tumores que não se consegue entender muito a epidemiologia de risco. Estamos vendo uma assinatura específica mutacional em câncer de cólon em pacientes abaixo de 50 anos. Tipos específicos de bactéria que compõem a microbiota e, provavelmente, colonizam o intestino ainda na primeira infância. A gente está desenhando um estudo no Brasil com, pelo menos, 12 centros para confirmar essa hipótese e poder avançar e entender o que que está levando essa colonização de algumas dessas bactérias que produzem alguns cancerígenos. 


Pode nos dar exemplos de como a IARC tem impactado políticas de saúde no Brasil?


Dr. Luís Felipe: Um exemplo significativo é a mudança no regime de vacinação contra o HPV no Brasil para uma dose única, baseada em evidências geradas pela IARC. Isso não só representa uma economia substancial, mas também melhora a adesão ao programa de vacinação, prevenindo eficazmente o câncer de colo de útero, dentre outros associados ao HPV. Importante enfatizar que outra contribuição relevante da IARC é a formação e os treinamentos de cientistas de países de médio e baixo índice de desenvolvimento. Estes cientistas retornam para seus países e lá desenvolvem pesquisas em câncer, muitas vezes com colaborações internacionais. Conheço inúmeros cientistas formados na IARC que têm atuação de relevância no Brasil. Tendo isto em vista, recentemente, assinamos um acordo para criar um centro de aprendizagem da IARC no Brasil (IARC Learning Center), sediado no INCA, que vai formar epidemiologistas e gestores em saúde, fortalecendo ainda mais nossa capacidade de prevenção do câncer. O Brasil é o segundo país no mundo a sediar um desses centros, o primeiro foi a China. O objetivo é formar epidemiologistas em câncer e gestores em saúde trabalhando com base em evidências. Tanto para evitar a exposição a fatores de risco como também para implementar metodologias de rastreamento mais efetivas. O curso também será oferecido aos países lusofônicos, assim como aos países da América Latina, mostrando então o papel do Brasil como um líder no hemisfério sul e absolutamente alinhado às políticas internacionais priorizadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e com amplo apoio do atual diretor do INCA, Dr. Roberto Gil, e da Ministra de Saúde, Dra. Nizia Trindade. 


Como a pesquisa da IARC se diferencia e qual é o impacto dela no mundo?


Dr. Luís Felipe: A IARC tem um mandato internacional da OMS, o que permite atuar em países onde outras instituições não conseguem. Um exemplo é o trabalho no Irã, onde identificamos o risco de câncer de esôfago associado ao consumo de ópio na década de 70. Além disso, a IARC é convidada para avaliar situações de risco em todo o mundo, como recentemente na Rússia, onde analisamos os riscos dos asbestos, uma fibra que foi utilizada no passado em construções, que é um excelente isolante térmico. Porém, determinados tipos de asbestos causam um tipo de câncer no pulmão chamado mesotelioma. A agência também tem programas de treinamento, como o curso de verão em epidemiologia do câncer, reconhecido mundialmente. A cada dois anos eles abrigam aqui 36 estudantes do mundo inteiro.


Qual é a importância da liderança brasileira na IARC?


Dr. Luís Felipe: Ter uma liderança brasileira, como a diretora geral da IARC, Elizabeth Weiderpass, e, agora, a presidência do Conselho Científico, ocupada por mim, além do dr João Viola, no Conselho de Governança, demonstra o reconhecimento da qualidade da ciência brasileira e, especialmente, da nossa capacidade de inclusão. Neste caso, de mulheres em posições de destaque, o que precisa, é claro, se expandir muito mais.  A doutora Weiderpass tem feito um trabalho espetacular e é um orgulho enorme para nós. Ela tem um longo trabalho de excelência em epidemiologia em registros de base populacional em câncer, não só no Brasil, mas, particularmente, nos países da Escandinávia e é reconhecida mundialmente como uma das grandes autoridades nessa área.


Quais são os próximos passos para a IARC sob sua liderança no conselho científico?


Dr. Luís Felipe: Continuaremos a focar na implementação de políticas de prevenção baseadas em evidências, melhoria da qualidade dos registros de câncer e avaliação de compostos cancerígenos. Também expandiremos nossas colaborações internacionais e programas de treinamento. A criação do Centro de Aprendizado do IARC no Brasil é um passo importante para formar mais especialistas em câncer e fortalecer nossas capacidades de prevenção e tratamento. Além disso, estamos planejando novos estudos e colaborações para entender melhor os fatores de risco para tipos de câncer menos conhecidos.


Um pouco mais sobre o dr Luis Felipe Ribeiro PintoO dr Luis Felipe Ribeiro Pinto é uma figura proeminente no campo da Oncologia no Brasil e no mundo. Como pesquisador titular do INCA, chefia o Programa de Carcinogênese Molecular desde 2010 e coordena o Programa de Pós-Graduação em Oncologia. Foi vice-diretor geral da instituição entre 2015 e 2016, coordenador de ensino (2013 - 2017). Antes de assumir a presidência do Conselho Científico na IARC/OMS, atuou como representante do Brasil (2013-2017, e desde 2021). 


No Programa de Oncobiologia, uma iniciativa interinstitucional sediada no Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele lidera um grupo de pesquisa em câncer. O foco da investigação são os tumores do trato aero-digestivo superior (UADTs). Esses tumores afetam áreas como a cavidade oral, laringe, hipofaringe, orofaringe e esôfago. O tipo de câncer mais comum nesses casos é o carcinoma de células escamosas. Esses cânceres são, no Brasil, a segunda maior causa de câncer em homens. A detecção ocorre, na maioria das vezes, em estágios avançados, o que dificulta o tratamento e reduz as chances de cura. Avanços científicos que possibilitem entender como esses cânceres se desenvolvem, além de aprimorar formas melhores de diagnosticá-los e tratá-los precocemente são cruciais.

 

Entrevista realizada por Felipe Siston, jornalista divulgador científico do Programa de Oncobiologia, com apoio de Renata Alvim, da célula de ciência cidadã BEM+ Laboratório Informal.



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