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Nova testagem pode antecipar em dez anos diagnóstico de câncer de colo do útero




O Programa de Oncobiologia entrevistou o pesquisador do INCA, Marcelo Soares, que incentiva maior participação da população na consulta pública de incorporação da testagem.


Enquanto escrevemos, faltam menos de 48h para o Ministério da Saúde encerrar o prazo da consulta pública sobre um novo procedimento de prevenção do câncer na população brasileira: as testagens de alto desempenho para detecção do vírus Papilomavírus Humano (HPV). Espera-se com a nova testagem ampliar a detecção dos casos de câncer de colo do útero em estágio inicial, antecipando diagnósticos em até 10 anos


O Programa de Oncobiologia ouviu, às vésperas da conclusão da consulta pública, o pesquisador do Instituto Nacional de Câncer (INCA), Marcelo Soares. Ele é coordenador do Programa de Oncovirologia no INCA, uma das 9 instituições do Estado do Rio de Janeiro que participam do Programa de Oncobiologia. 


O câncer do colo do útero é o quarto tipo de câncer mais comum e é a quarta maior causa de morte por câncer em mulheres no mundo, tendo como causa principal do problema a infecção pelo HPV, na maioria das vezes transmitido por via sexual. A nova técnica de testagem, caso seja implementada, pode fazer grande diferença e beneficiar inclusive mulheres fora do enquadramento de alto risco, ampliando o intervalo das checagens, defende o pesquisador. 


"Sou totalmente favorável e concordo com a adoção da testagem molecular de alto desempenho do HPV. Ela é muito mais efetiva e custo efetiva", diz Marcelo Soares. E acrescenta que a testagem consegue detectar a infecção mesmo antes das lesões. 

 

A consulta pública do Ministério da Saúde sobre a testagem de alto desempenho se encerra nesta quarta-feira (17/01). Caso ainda esteja em tempo, leia a entrevista e acesse o site Participa Brasil para deixar lá a sua contribuição, seja como paciente, profissional da saúde ou cidadão Brasileiro.



Confira a entrevista:

P: Como funciona a testagem de alto desempenho? O que a diferencia da testagem tradicional?


A testagem de alto desempenho para detecção do HPV tem esse nome porque ela, diferentemente das outras testagens por citologia tradicionais (papanicolau, por exemplo), consegue detectar diretamente o vírus. E, por serem de alto desempenho, são capazes de detectar individualmente tipos específicos do HPV que estão presentes ali naquele tecido, naquela lesão. 


P: Então elas são de alto desempenho porque elas são capazes de identificar os tipos de vírus individualmente. E existem diferentes tipos de testes de alto desempenho? Qual a principal diferença entre eles?


Sim, existe uma série de metodologias nesses testes de detecção de HPV. A grande maioria deles funciona por PCR (Polymerase Chain Reaction ou Reação em Cadeia da Polimerase), onde você amplifica fragmentos específicos da sequência do vírus, da sequência de DNA do vírus. Alguns outros funcionam por hibridização reversa, seja em chips, seja em fitinhas, strips, como a gente chama, e até por citometria de fluxo. (Para entender melhor, acesse aqui o relatório técnico da testagem.)


Agora, a vasta maioria deles é por PCR, principalmente PCR em tempo real. E eu diria que quase todos os kits aprovados clinicamente, recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e aprovados até aqui no Brasil para utilização clínica pela Anvisa, são por PCR em tempo real. O que há de variação entre esses kits é, de fato, como eles detectam individualmente cada um desses tipos. A diferença principal entre eles é justamente a combinação de tipos de alto e baixo risco, ou apenas de alto risco. Então, alguns kits, por exemplo, detectam ambos alto e baixo risco e outros apenas alto risco. Mas eu diria que praticamente todos detectam todos os principais riscos oncogênicos associados ao vírus HPV .


P: Você pode detalhar quais são os tipos de HPV?


Existem muitos tipos de HPV, na verdade centenas de HPVs, e desses, aqueles que infectam mucosas, que vão dar origem aos cânceres associados ao HPV, são mais ou menos 40 tipos diferentes, sendo uns 14 que vão dar origem a câncer. Esses a gente chama de alto risco oncogênico, e outros, de baixo tipo oncogênico, estão associados a verrugas como condilomas, por exemplo. 


P: Qual o impacto direto na saúde das mulheres com a utilização dos kits de alto desempenho?


Então, a gente percebe que utilizando esse teste de alto desempenho, a gente pode acompanhar as mulheres mais precocemente ou, obviamente, se ela tem um tipo de alto risco detectado, ela vai ter um segmento mais próximo do que outras mulheres. Caso ela não tenha um tipo de alto risco, ela pode estender o intervalo até o próximo ciclo de rastreio, fazendo um período muito maior do que hoje é feito utilizando-se o Papanicolau, por exemplo. Então, isso também facilita o seguimento dessas mulheres.


P: Isso quer dizer que diminui o número de vezes que ela precisa fazer exames, se ela não tem um tipo de alto risco…


Sim, e isso é um benefício grande considerando-se as barreiras socioeconômicas, geográficas que a gente tem no Brasil.


P: Existe alguma parcela da população de mulheres brasileiras que ganharia mais com essas testagens, levando-se em conta a prevalência dos subtipos de HPV no nosso territórIo 


Na verdade não existe um grupo específico, uma parcela específica da população de mulheres que vai se beneficiar especificamente com esse teste de alto desempenho de HPV em detrimento de outras partes da população feminina. Todas se beneficiarão no sentido de que é um teste com uma sensibilidade muito maior para a detecção do vírus e dessa forma consegue detectar, inclusive, potenciais infecções como, por exemplo, com tipos de alto risco oncogênico que poderão desenvolver um câncer ou uma lesão pré maligna futuramente. 


Ainda em relação a essa pergunta, eu ressalto mais uma vez que qualquer que seja o teste específico utilizado escolhido pelo Ministério, ele vai detectar os tipos que estão presentes aqui na população brasileira e os tipos que são, na verdade, associados a alto risco para desenvolvimento de câncer. Então, esses são os mesmos, independente da população que está sendo analisada. 


P: Você poderia nos contar sobre as pesquisas nessa área que foram ou estão sendo realizadas no Brasil?


Na população brasileira existem alguns poucos estudos pilotos comparando custo-efetividade. Isto é, não só a eficiência, mas o custo-efetividade de testes moleculares de HPV contra outras modalidades.


Eu diria que um primeiro estudo, um piloto muito importante foi aquele conduzido pela prefeitura de Indaiatuba (SP), uma cidade médio-porte a mais ou menos 100km da capital do estado. Ali, comparou-se inclusive o custo-efetividade do teste molecular contra a citopatologia tradicional e mostrou, sendo um estudo de rastreio de base populacional, que o teste molecular de HPV era mais efetivo e menos dispendioso.


Atualmente está em desenvolvimento um outro estudo de maior importância, já dentro da política de incorporação dos testes moleculares de alto desempenho de HPV pelo SUS, no estado de Pernambuco. Esse foi considerado também um grande estudo, embora inicialmente piloto, agora a gente já vê como estudo de implantação, já para depois ser expandido para o resto do país. Ele está utilizando na população de Pernambuco um outro teste molecular também, aprovado, de alto desempenho em comparação com a citologia tradicional. 


Aqui eu devo ressaltar: já existe um primeiro teste brasileiro desenvolvido pelo Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP), que é original da Fiocruz do Paraná. O kit foi aprovado pela Anvisa agora, em dezembro de 2023, para uso clínico, para rastreio populacional. Ele contempla os tipos de HPV, obviamente também com todos os outros associados ao câncer de colo de útero, mas tem foco na testagem para alto risco. Muito possivelmente entrará na concorrência para ser implantado no SUS. 


P: O INCA participou de alguma forma destes estudos?


Nós do INCA fomos parceiros de desenvolvimento, colocando amostras validadas para o uso da testagem do kit do IBMP. Foram utilizadas amostras que a gente já tinha bem caracterizadas aqui no Instituto Nacional de Câncer. 


P: Como vê a participação popular na consulta pública?


Eu sou sempre favorável à consulta pública aberta à população em geral dessas decisões acerca da incorporação de novas tecnologias pelo Sistema Único de Saúde. Obviamente, são os recursos providos pela própria população, em forma de impostos que vão subsidiar essa incorporação, permitindo ou não essas incorporações. Na prática, porém, é um número, normalmente muito pequeno, principalmente quando se vê a população geral, inclusive de pacientes. Muito pouca gente acaba de fato entendendo o que significa, mesmo com os relatórios favorecendo essa compreensão. 


Para você ter uma ideia, essa consulta pública foi aberta de 29 de dezembro do ano passado, finalzinho do ano, ela vai até o dia 17 de janeiro. No site do Participa Brasil hoje, dia 13 de janeiro, foi cadastrado um número de contribuições notadamente constituído por profissionais de saúde, que de fato entendem o teste, as diferenças entre o teste tradicional a ser potencialmente incorporado e as implicações de utilização desse novo teste no sistema público de saúde. É um direito da sociedade como um todo ter essa consulta feita, ter a própria sociedade participando para uma tomada de decisão desse porte.


P: Qual decisão deve ser tomada na sua opinião?


Eu sou totalmente favorável e concordo com a adoção da testagem molecular de alto desempenho do HPV. Ele é muito mais efetivo e custo efetivo, quer dizer, efetivo no sentido para o paciente individual, que é que você consegue detectar a infecção mesmo antes de conseguir detectar lesões. Então você pode acompanhar esse paciente mais proximamente e dessa forma detectar qualquer alteração celular já bem no início e também no sentido de custo-efetividade. Em termos de saúde pública, ele é muito mais efetivo também, muito menos custoso você usar essa metodologia do que ter lá os casos de lesões e até desenvolvimento de câncer para só então vir a tratar.


Felipe Siston (entrevista e edição final)

Rafael Vasconcelos (revisão popular)

Gabriela Nestal de Moraes e Marcelo Alves Soares (revisão científica)



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