Pesquisadores criam plataforma para tornar diagnóstico por biópsia líquida mais acessível no Brasil

Atualizado: 6 de jun.

09/03/2020 - Por Lúcia Beatriz Torres

Cérebro, pulmão, ovário, pâncreas... Muitos tumores estão localizados em órgãos de difícil acesso, dessa forma a biópsia de tecido nessas áreas são mais complexas de serem realizadas. A biópsia líquida surge para simplificar o processo do diagnóstico do câncer, por ser menos invasiva ao paciente e mais sensível para indicar mutações, porém o seu custo ainda é elevado para ser uma prática de diagnóstico difundida no Brasil. Mesmo pagando caro, não é fácil encontrar laboratórios que façam o diagnóstico e monitoramento do câncer através do sangue em nosso País.


Com o objetivo de desenvolver uma plataforma para o diagnóstico de neoplasias com base na genotipagem através de biopsia líquida, o pesquisador Vivaldo Moura Neto, do Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemeyer, coordena um projeto colaborativo com uma rede de laboratórios envolvidos. O projeto, selecionado no Edital 2019 do Programa de Oncobiologia da UFRJ, apoiado pela Fundação do Câncer, colabora para tornar a biópsia líquida uma realidade para o diagnóstico do câncer acessível à população, pelo sistema público de saúde brasileiro.





A plataforma usa a metodologia de PCR digital para detecção de padrões de mutações relacionadas a diferentes tipos de tumor para o diagnostico precoce, prognóstico e monitoramento do tratamento, de acordo com o estágio de cada paciente. “A ideia é fazer um diagnóstico complementar ao do patologista. Ao coletar um pequeno volume de sangue do paciente, iremos verificar se o gene mutado para o câncer está presente”- observou o pesquisador.


Através da biópsia líquida é possível colher amostras de sangue de forma regular - antes e após cirurgia – o que permite ao médico fazer um acompanhamento mais contínuo do paciente. Além de ser um método pouco invasivo, é bem eficiente para revelar se a cirurgia foi eficaz para acabar com o tumor ou se há sinais de que ele está reaparecendo. Vivaldo Moura Neto afirma que também é possível fazer esse acompanhamento por ressonância, porém essa é uma técnica cara e que nem sempre pode ser feita com frequência pelos pacientes.


Da biópsia de tecido à biópsia líquida


Biópsias têm sido usadas por clínicos para diagnosticar doenças há mais de 1000 anos. Nas biópsias de tecido, o diagnóstico do câncer é feito pelo trabalho do médico patologista que analisa um fragmento do tumor para avaliar a gravidade da neoplasia.


Recentemente, em torno de 5 ou 6 anos no máximo, se retomou a ideia de fazer o diagnóstico por uma medida de mutação de câncer que era usada nos anos 70 para os tumores líquidos, os linfomas (tumores circulantes). “ O intuito agora é fazer o diagnóstico pelo sangue para qualquer tipo de tumor”- explicou o pesquisador do Instituto Estadual do Cérebro, que está bastante otimista com o projeto em rede que coordena, pois a cooperação com outros institutos permite testar a plataforma para diferentes tipos de câncer e também para doenças que tenham o sinal de um gene importante, que possa ser detectado no sangue.


Para fazer o diagnóstico através biopsia líquida, alguns microlitros do sangue do paciente é retirado. Separa-se o plasma, que é a parte mais solúvel, e submete essa plasma a uma PCR altamente resolutiva que irá informar quantos fragmentos de DNA com a indicação de mutação tumoral estaria presente na amostra. O DNA circulante do tumor (ctDNA) pode, em principio, fornecer as mesmas informações genéticas que a biópsia de tecido, com a vantagem de ser mais específico quanto à heterogeneidade do tumor, tendo em vista que áreas diferentes do mesmo tumor podem exibir perfis genéticos diferentes.


Principais desafios da biopsia líquida


Segundo Vivaldo Moura Neto, o principal desafio desta técnica de diagnóstico é conseguir ter um bom isolamento do DNA. “Dependendo da sua fonte, pode ser pequena a quantidade de DNA circulante na amostra. O que irá dificultar na entrega de um resultado mais especifico”- observou. Para melhorar o perfil de análise de sua plataforma, Vivaldo submeteu um projeto à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e comprou um equipamento que permite uma purificação de DNA de alto desempenho e rendimento.


A genotipagem do tumor é um método possível de categorizar tumores para decisões clínicas, que possui potencial de identificar pacientes que terão mais chances de responder a diferentes drogas, através do uso dos chamados biomarcadores. Recentemente, progressos têm sido feitos na descoberta de novos biomarcadores, como mutações nos genes EGFR, KRAS, ERBB EML4-ALK. Cânceres que apresentam essas mutações são mais responsivos à inibidores específicos.


Colaborações


Para criação da plataforma de diagnóstico de tumores, a partir de biópsia líquida, o projeto conta com um rede de laboratórios envolvidos: Laboratório de Biomedicina do Cérebro, coordenado por Vivaldo Moura Neto, no Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemeyer (IECPN), com as equipes das Profa. Monica Roberto Gadelha, Leila Chimelli e a equipe de Paulo Niemeyer Filho do IECPN.


Além destas equipes, participam, o Centro de Cirurgia Experimental do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da UFRJ, dirigido por Alberto Schanaider, conjuntamente com o Programa de Pós-Graduação em Ciências Cirúrgicas; ainda, a participação das equipes dos Prof. José Eduardo Ferreira Manso, Wagner Baetas da Cruz e José Marcus Raso Eulálio do Departamento de Cirurgia da UFRJ, a Profa. Vera Pannain da Anatomia Patológica da UFRJ, o Dr. Maurício Magalhães do Centro Médico Sorocaba e o grupo da Profa Patrícia Garcez, do Instituto de Ciências Biomédica da UFRJ, integrante do programa de Oncobiologia da UFRJ. A colaboração se estende também ao Hospital Naval Marcílio Dias, com interveniência do Dr. Marcelo Leal e com o INTO por coordenação da Profa. Maria Eugênia Duarte.


Pra aprofundar


A biópsia líquida apresenta-se como uma grande promessa para detecção, prognóstico e predição de resposta ao tratamento do câncer. Poucos trabalhos, entretanto, utilizando biópsia líquida foram publicados no Brasil até o momento. Confira os artigos científicos selecionados pelo pesquisador Vivaldo Moura Neto, do Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemeyer (IECPN), para você se aprofundar no tema:

BEAVER, J. A. et al. Detection of cancer DNA in plasma of patients with early-stage breast cancer. Clinical Cancer Research : an official journal of the American Association for Cancer Research, v. 20, n. 10, p. 2643–2650, 15 maio 2014.


BETTEGOWDA, C. et al. Detection of circulating tumor DNA in early- and late-stage human malignancies. Science translational medicine, v. 6, n. 224, p. 224ra24, 19 fev. 2014.


COHEN, J. D. et al. Detection and localization of surgically resectable cancers with a multi-analyte blood test. Science (New York, N.Y.), v. 359, n. 6378, p. 926–930, 2018.


CROWLEY, E. et al. Liquid biopsy: Monitoring cancer-genetics in the blood. Nature Reviews Clinical Oncology, v. 10, n. 8, p. 472–484, 2013.


DOMÍNGUEZ-VIGIL, I. G. et al. The dawn of the liquid biopsy in the fight against cancer. Oncotarget, v. 9, n. 2, p. 2912–2922, 2018.


HINDSON, C. M. et al. Absolute quantification by droplet digital PCR versus analog real-time PCR. Nature methods, v. 10, n. 10, p. 1003–5, out. 2013.


HOFMAN, P.; POPPER, H. H. Pathologists and liquid biopsies: to be or not to be? Virchows Archiv, v. 469, n. 6, p. 601–609, 2016.


Para simplificar


No projeto “Um Minuto sobre o câncer” o pesquisador Vivaldo Moura Neto apresenta as vantagens da biópsia líquida para o diagnóstico do câncer.