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Perigos da dieta cetogênica para pacientes com câncer

Atualizado: 14 de fev. de 2023

Um diagnóstico preocupante: na esperança pela cura da doença, um grande número de pacientes com câncer está aderindo, por conta própria, à dieta cetogênica, que prescreve uma restrição drástica do consumo de carboidratos. Uma verdade nada milagrosa: ainda não existem evidências científicas suficientes para que a dieta seja recomendada. Esse foi um dos pontos abordados no lançamento oficial do posicionamento do Instituto Nacional de Câncer (INCA) sobre a orientação de dietas restritivas durante o tratamento oncológico, que foi transmitido ao-vivo pela internet e pode ser acessado aqui. No evento, também foi lançada a publicação “Dietas restritivas e alimentos milagrosos durante o tratamento do câncer: fique fora dessa”, voltada para pacientes, disponível para download gratuito.


De acordo com a nutricionista Gabriela Villaça Chaves, responsável pela elaboração da cartilha, informações falsas e sem embasamento científico são publicadas diariamente na internet, levando os pacientes a dúvidas e falsas esperanças. “Infelizmente, temos observado que até mesmo nutricionistas e profissionais da saúde tem usado suas páginas nas redes sociais para recomendar a dieta cetogênica. Mas ainda precisamos de estudos clínicos que esclareçam a duração indicada da dieta, por exemplo, ou para quais pacientes essa dieta é ou não indicada”, afirma Gabriela. “Existe um percurso necessário para que uma hipótese científica seja validada e transformada em indicação clínica”.


Em seu posicionamento, o INCA esclarece que a dieta cetogênica é indicada para pacientes epiléticos, e conta com um protocolo clínico bem definido, fruto de inúmeras pesquisas científicas. O que não é o caso da prescrição para pacientes com câncer. “Foram publicadas, até hoje, menos de quinze estudos sobre a dieta cetogênica e câncer, e em modelos animais. Para se ter uma ideia, foram necessários mais de 5 mil estudos para que a Agência Internacional de Pesquisas em Câncer (IARC) ratificasse a associação entre o consumo de carne e o câncer” afirma a pesquisadora Sheila Coelho Soares Lima, do Programa de Carcinogênese Molecular do INCA. “Existem poucas evidências do impacto positivo dessa dieta, em estudos que utilizaram diferentes metodologias, em diferentes linhagens animais e em diferentes tipos de câncer. E ainda por cima, nem todos os estudos mostraram impacto positivo, são muitas restrições e detalhes que precisam ser considerados em toda a sua complexidade. Precisamos ser responsáveis na interpretação desses dados científicos”, conclui.


Em seu posicionamento, o INCA reforça o mais recente consenso da Sociedade Europeia de Nutrição Enteral e Parenteral, e orienta que a alimentação dos pacientes do câncer sigam as mesmas recomendações energéticas de pessoas saudáveis, com uma ingestão equilibrada entre gorduras, proteínas e carboidratos. E alerta para os efeitos colaterais decorrentes da dieta cetogênica, que incluem constipação, câimbras, diarreia, cefaleia, fadiga e perda de peso. “Além disso, queixas digestivas são frequentes durante o tratamento com quimioterapia e/ou radioterapia e possivelmente são agravadas pela adoção de dietas com elevado teor de gordura“, afirma o posicionamento do INCA.


Outro risco da adoção desse tipo de dieta, de acordo com a pesquisadora Sheila Coelho, é a caquexia, uma síndrome associada a diversos tipos de câncer e caracterizada pela perda de massa muscular. “Para sobreviver, o tumor consegue outras fontes de glicose além da alimentação, e uma das formas é degradando as proteínas dos músculos. Ou seja, a dieta cetogênica até pode reduzir a glicose do corpo, mas provavelmente o tumor pode conseguir essa energia de outras fontes, levando o paciente a quadros como a caquexia”, afirma Sheila Coelho.


Fake News e informações sobre saúde


E para combater as falsas informações que circulam na internet, o que prescrevem as especialistas? Informações corretas. Além do posicionamento, voltado para profissionais da saúde, o INCA elaborou uma cartilha dirigida ao público, em que aborda os quatro principais mitos relacionados à dieta: o mito de que os carboidratos alimentam o tumor, o mito de que cortar os carboidratos ajuda no tratamento do câncer, o mito de que proteínas de origem animal (como carne vermelha, ovos ou queijos) devem ser cortadas da alimentação pois aumentam o tumor, e mitos de que alimentos como cogumelo do sol, graviola ou noni tem o poder de curar o câncer.


“Vivemos um contexto social em que existe charlatanismo e fraude, e precisamos buscar fontes confiáveis, como institutos de pesquisa em câncer. Os cientistas tem a obrigação social de tornar seu conhecimento acessível”, afirma Liz Maria de Almeida, da divisão de pesquisa populacional do INCA.



Por Rosa Maria Mattos, jornalista de Ciência, responsável pelo Núcleo de Divulgação do Programa de Oncobiologia.

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