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Obesidade & Câncer: estudo tenta desvendar a relação

A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta a obesidade como o segundo maior fator de risco para o câncer, atrás somente do tabagismo. Apesar de aumentar o risco, a obesidade não é uma característica determinante para que o câncer se estabeleça, entretanto, há uma relação muito grande entre o grau de obesidade e a piora do prognóstico de câncer.


A fim de desvendar os mecanismos bioquímicos e moleculares que estão por trás da relação entre a obesidade & câncer, a pesquisadora Mariana Renovato Martins, do Instituto de Biologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), estuda as vesículas extracelulares do tecido adiposo de pessoas obesas, para entender como estas podem modificar o comportamento das células tumorais. Esse estudo se dá em parceria com a UERJ, onde colabora com sua ex-orientadora, a professora Thereza-Christina Barja-Fidalgo, pesquisadora do Programa de Oncobiologia.


“Hoje em dia já sabemos que o organismo de um indivíduo obeso geralmente apresenta um componente inflamatório crônico, mas ele não precisa, entretanto, estar infectado por bactéria ou vírus” – observou Mariana Renovato.


Segundo a pesquisadora, o tecido adiposo de um indivíduo obeso se comporta de maneira diferente do tecido de uma pessoa saudável, liberando moléculas que fazem com que o organismo entenda como se estivesse acontecendo uma inflamação. "Só que as células do sistema imune chegam no tecido adiposo e não há inflamação a combater. Entretanto, essas células se concentram, ampliando o quadro inflamatório" – explicou Mariana, ressaltando que é devido a esse componente inflamatório associado à obesidade que faz com que ela tenha relação com o estabelecimento de outras doenças. Além do câncer, pessoas acima do peso também estão propensas à diabetes, doenças cardiovasculares, problemas de articulação, entre outras enfermidades.


Mariana Renovato pesquisa a obesidade desde a iniciação científica, mas foi somente após o seu doutorado sanduíche na França, que passou a estudar o papel das vesículas extracelulares derivadas do tecido adiposo e sua relação com o câncer e o sistema imunológico.

Vesículas extracelulares do tecido adiposo & câncer


Ao analisar em laboratório o comportamento do tecido adiposo proveniente de pacientes de cirurgia bariátrica, a pesquisadora identificou o aumento da liberação de vesículas extracelulares. Curiosa pela popularidade das publicações envolvendo vesículas extracelulares, Mariana resolveu primeiro testar o efeito dessas vesículas no sistema imunológico. E quando uma aluna de iniciação científica quis fazer um trabalho com câncer, resolveu juntar as duas áreas.


"Temos visto que quando tratamos as células tumorais com as vesículas extracelulares de pacientes obesos, as células tumorais crescem mais, migram mais e apresentam comportamento mais metastático e têm as suas funções alteradas pra pior. Elas ficam mais potentes quando tratamos com as vesículas." - ressaltou a pesquisadora.


As vesículas são muito pequenas. Chegam a medir nanômetros, mas carregam proteínas, lipídeos, alguns tipos de rnas e isso pode alterar a função da célula aceptora, no caso a tumoral. "Nós acreditamos que seria possível descobrir as vias que estão alteradas em uma célula tumoral e tentar modular isso com fármacos daqui a algum tempo." - apontou como uns caminhos da pesquisa.


Uma outra possibilidade seria tentar inibir a saída dessas vesículas do tecido adiposo. Então para isso é necessário entender com elas saem do tecido adiposo, quais são as ferramentas da célula pra aumentar essa saída e tentar bloquear. Mas Mariana lembra, entretanto, que como as vesículas extracelulares são fisiológicas, elas participam do controle corporal, não é possível inibir tudo.


"É complicado pensar como a inibição da vesícula levaria à terapêutica. Seria mais interessante tentar inibir a fusão. Desenvolver alguma molécula que pudesse se ligar nas vesículas e impedir a sua fusão com uma célula tumoral" - observou. Segundo a pesquisadora, ainda levará tempo até os estudos serem passíveis de se transformar em um fármaco, mas esse pode ser um caminho.


"A nossa pesquisa é básica. Visamos entender os mecanismos que levam as células a secretarem as vesículas e quais são efeitos dessas vesículas sobre outras células. Uma vez que percebemos que elas modificam o comportamento da célula tumoral focamos no câncer de mama, que está entre um dos mais prevalentes nas pessoas obesas." - explicou Mariana Renovato, que apresentou o resultado de suas pesquisas envolvendo obesidade & câncer no Seminário do mês de dezembro (03/12) do Programa de Oncobiologia.

Pra aprofundar!


Confira os artigos científicos selecionados pela pesquisadora Mariana Renovato ( Instituto de Biologia/UFF) para você se aprofundar no tema:


Nimri, L. et al. (2019) ‘Adipocytes Isolated from Visceral and Subcutaneous Depots of Donors Differing in BMI Crosstalk with Colon Cancer Cells and Modulate their Invasive Phenotype’, Translational Oncology. The Authors, 12(11), pp. 1404–1415. doi: 10.1016/j.tranon.2019.07.010.


Renovato-Martins, M. et al. (2017) ‘Microparticles derived from obese adipose tissue elicit a pro-inflammatory phenotype of CD16 + , CCR5 + and TLR8 + monocytes’, Biochimica et Biophysica Acta - Molecular Basis of Disease. Elsevier B.V., 1863(1), pp. 139–151. doi: 10.1016/j.bbadis.2016.09.016.


dos Anjos Pultz, B. et al. (2017) ‘The multifaceted role of extracellular vesicles in metastasis: Priming the soil for seeding’, International Journal of Cancer, 140(11), pp. 2397–2407. doi: 10.1002/ijc.30595.


Aoki, N. et al. (2010) ‘Adipocyte-derived microvesicles are associated with multiple angiogenic factors and induce angiogenesis in vivo and in vitro’, Endocrinology, 151(6), pp. 2567–2576. doi: 10.1210/en.2009-1023.

Para simplificar!


Confira abaixo o vídeo da pesquisadora Mariana Renovato falando um minuto sobre obesidade & câncer.



Por Lúcia Beatriz Torres, jornalista de Ciência, Núcleo de Divulgação do Programa de Oncobiologia.

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