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Emergências climáticas e os cuidados com o câncer, relato de uma cientista no Sul do Brasil

Atualizado: há 2 dias

Áreas alagadas no Rio Grande do Sul. Foto: Icict/Fiocruz


Rossana Soletti é professora adjunta da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), no campus litoral Norte. Enquanto ela conversava conosco, voltava a chover forte na capital do Rio Grande do Sul (RS), agravando uma emergência climática que, dias antes, já era considerada a maior de toda a história do Estado. 


 “Eu, minha família, nós estamos em segurança.”


O campus onde Rossana trabalha, em Tramandaí (RS), não foi atingido diretamente pelas enchentes. “Porém, o litoral agora virou uma espécie de refúgio para os novos refugiados climáticos (...)”. E muitos alunos da UFRGS e suas famílias, segundo ela, perderam tudo na enchente nas regiões vizinhas. 


“Alguns colegas nossos de Porto Alegre também tiveram as casas alagadas. É uma situação muito complexa para a universidade também. Nós, como universidade, ainda estamos fazendo um mapeamento dos alunos, dos professores afetados e tentando encontrar uma solução para os próximos dias.”


Fotos enviadas pela professora, mostrando o auditório da UFRGS Campus Litoral Norte, que é usado para receber doações. E uma registro da lagoa, que fica no campus, com volume excessivo de água. Fotos: Rossana Soletti.


Trajetória com o Programa de Oncobiologia


Rosana conhece o Programa de Oncobiologia há bastante tempo. “Desde que eu entrei no doutorado, em 2007, no Instituto de Ciências Biológicas (ICB). Fui aluna da professora Helena Borges e trabalhei no laboratório do professor Vivaldo Moura Neto.” 


Ela atuou na organização do primeiro Simpósio de Oncobiologia, em 2007. 


Mãe da Marina e da Lara, hoje ela tem mais de cem mil seguidores na página maternidade.com.ciência, no Instagram. É uma referência em maternidade e ciência. Conversamos também sobre como os institutos de pesquisa devem se preparar para celebrar conquistas na ciência para as mães daqui até maio de 2025. Essa parte da entrevista ficará disponível nas próximas semanas. 


Começamos ouvindo Rossana sobre a emergência climática no Rio Grande do Sul e as relações entre clima e câncer. 

 

Pontos mostram estabelecimentos de saúde nas regiões de alagamento no Rio Grande do Sul - Mapa do Observatório de Clima e Saúde (Icict/Fiocruz)


Muito obrigado por falar conosco, Rossana, justo neste momento tão crítico. Vamos voltar um pouco no tempo. Conte um pouco da sua pesquisa e da sua trajetória nas instituições do Programa de Oncobiologia. A sua tese de doutorado foi sobre câncer…


Eu estudei câncer do sistema digestório. Depois do meu doutorado, fiz um pós-doutorado na COPPE, na UFRJ, trabalhando com diagnóstico de câncer, e também diagnóstico molecular de câncer. Depois, eu fui professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, na zona oeste (UERJ-ZO), continuei a colaboração com a UFRJ, com Helena e com a COPPE. Mantenho essas colaborações até hoje.


Em 2018 eu resolvi voltar para o Rio Grande do Sul, eu sou gaúcha.(...) Mudei muito as minhas áreas de pesquisa por questões estruturais (...) 


Eu tenho desenvolvido mais recentemente pesquisas sobre fármacos, mais especificamente sobre poluição farmacêutica e contaminantes ambientais, contaminantes emergentes. E aí a gente inclui fármacos, mas inclui também outros tipos de contaminantes como pesticidas, resíduos de materiais plásticos e disruptores endócrinos, e nisso a gente também envolve um pouquinho de câncer. 


Fale por favor dessa relação do câncer com a Biologia e as questões ambientais…


A gente começou a fazer parcerias aqui, tanto nessa área de poluição farmacêutica, quanto também na área de câncer, então eu tô começando a colocar uma linha de pesquisa que é sobre câncer em animais marinhos. Começamos agora a estudar o câncer em lobos marinhos aqui da região a partir de um caso que a gente teve de um lobo que surgiu no Centro de Reabilitação de Animais Marinhos com linfoma. Esses casos de câncer em animais marinhos são muito raros, grandes paradoxos da ciência. Muitos animais marinhos têm uma longevidade muito grande e um tamanho muito grande também. Deveriam, portanto, ter uma incidência maior de câncer, mas não é isso que a gente observa.


E observam a poluição afetando esses animais…


A ciência tem muito recentemente tentado estudar alguns genes relacionados ao desenvolvimento de câncer nesses animais. Começamos a fazer isso aqui com algumas amostras que a gente tem. Também existem alguns casos específicos em que esse câncer em animais marinhos estão associados à poluição. Então tem um caso bem específico que é dos leões marinhos da Califórnia em que um percentual muito grande desses animais, até quase 30% deles, desenvolvem um tipo de câncer urogenital que após vários anos de pesquisa se descobriu que está associado à infecção por um tipo de herpes vírus e também à poluição local por contaminantes persistentes. Então como nós temos, infelizmente, na nossa região aqui da costa brasileira, contaminação também por esses mesmos contaminantes e também já foram observados alguns casos de infecções por esses vírus, a gente começou a investigar esses genes relacionados à incidência de câncer nos lobos marinhos aqui.


Conhece algum estudo que relacione as emergências climáticas ao combate ao câncer?


Temos muitos estudos em diversos aspectos. Um dos maiores efeitos das mudanças climáticas, que é esse calor acentuado que nós temos visto e uma alta no índice da radiação UV, podem estar diretamente associados com um número maior de casos de câncer de pele. Aqui no Centro de Biologia onde eu trabalho, nós temos uma estação meteorológica e há cerca de um ou dois meses, foi observado que o índice de UV que estava muito acentuado, acima de 11, [grau] considerado um risco extremo. E durante vários dias, mais de duas semanas consecutivas. Alguns alunos que saíram a campo utilizando as mesmas barreiras de proteção solar que sempre utilizaram, voltaram com queimaduras de pele. 


E tem também os contaminantes emergentes. O que seriam?


Esses vários contaminantes, que podem vir de materiais plásticos e aditivos, como retardantes de chama, impermeabilizantes, e até pesticidas, por exemplo, podem ser considerados disruptores endócrinos. Existem diversos estudos relacionando níveis mais elevados desses contaminantes com risco maior para certos tipos de câncer. 


Essa área ainda está iniciando, a gente tem muita coisa para entender, inclusive quais são os nossos limites de tolerância, tanto em termos de saúde humana quanto de saúde ambiental para outros animais, a gente precisa aprender muito sobre isso, mas já tem muitos estudos mostrando que vários desses contaminantes emergentes têm sim uma associação com um risco maior para alguns tipos de câncer.


E no atual contexto da emergência climática, qual tem sido o impacto direto que você observa?


A gente tem um impacto direto no tratamento de câncer. Algumas iniciativas estavam tentando mapear pacientes de câncer que tiveram que sair de suas casas, largar os seus tratamentos, porque muitos hospitais da região, de várias regiões do Rio Grande do Sul, foram atingidos também. E como que pacientes fariam, então, para retomar os seus tratamentos quimioterápicos? Aqui no Rio Grande do Sul, grande parte dos procedimentos que não são emergenciais estão cancelados, né? Então, em muitas cidades, os procedimentos ambulatoriais até o fim do mês foram ou cancelados ou adiados. E isso inclui, por exemplo, muitos casos em que pessoas iriam fazer biópsias, casos também de pessoas que estão em tratamento de câncer, que precisavam, por exemplo, retirar um catéter. (...) Então, se a gente pensa nesses contextos de emergências climáticas, o impacto disso para o tratamento de câncer também é algo que com certeza é muito notável.


Estragos e prejuízos em Belford Roxo, na Baixada Fluminense do RJ, após a enchente do rio Botas, em janeiro de 2024. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil


Qual é a sua mensagem para cientistas e não cientistas, sabendo que esses casos não são isolados?


Sobre as medidas de prevenção e essa catástrofe não ser isolada, uma coisa que a gente espera que aconteça agora é que as pessoas e, principalmente o poder público, se torne mais aberto a ouvir o que os cientistas, (...) os cientistas do clima, já falam há tanto tempo. Eu acho que agora a população está percebendo que as mudanças climáticas que, tanto se fala na ciência, estão já entre nós e a gente precisa fazer alguma coisa. Se a gente não fizer alguma coisa, cenas como essa que, estamos todos vendo agora no Rio Grande do Sul, vão se tornar cada vez mais comuns, já se tornaram. Porque tivemos grandes enchentes aqui há pouco tempo, como em setembro do ano passado, que estão se repetindo de uma forma muito pior agora. A tendência é que a gente tenha cada vez mais eventos climáticos extremos, não só aqui na região sul, mas em várias outras regiões do Brasil. 


Alguns pesquisadores da própria UFRGS há anos já falam sobre a questão da desertificação dos solos (...), os impactos que o desmatamento na Amazônia vão provocar no Rio Grande do Sul, como que tudo isso já estava alterando o cenário do Rio Grande do Sul, tornando o estado muito mais propenso às chuvas torrenciais, aumentando a precipitação nos últimos anos. (...)


Nós temos a oportunidade, como ciência, como cientistas, de sermos ouvidos pelo poder público e que possamos agir em conjunto. Os cientistas há anos também, além de divulgar sobre isso, de fazer alertas, propõem ações e essas ações não são levadas em consideração. Então a gente precisa agora levar essas ações em consideração, precisa atuar de forma conjunta, fortalecendo não só as cidades e como que as cidades em si se adaptam para essas mudanças climáticas, mas também em grandes ações em conjunto para que a gente consiga ao menos frear essas mudanças.


Volume de chuvas no DF alaga pistas e causa transtornos em cidade satélite em janeiro de 2024. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil


Mobilizações de apoio a pacientes com câncer no Rio Grande do Sul


Mais de 90 oncologistas e organizações da sociedade civil, como a Força Onco RS e o Instituto do Câncer Infantil oferecem assistência, coletando informações de pacientes em situações de desabrigo ou vulnerabilidade e repassando demandas aos centros de tratamento de referência. O grupo Força Onco RS mantem um local exclusivo para abrigar pessoas em tratamento de câncer. A página Oncoguia listou aqui essas e outras iniciativas de apoio a pessoas em tratamento oncológico na atual emergência climática no Rio Grande do Sul.


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